A cada dia que passa, a dor é maior. Talvez ingenuamente pensava que melhoraria com o tempo.
Mas não.
Não melhora.
A concentração é difícil, a mente dispersa-se, inundada de recordações, saudades, culpabilidade também. Não consigo abstrair-me, pensar. As obras em casa iniciaram. Olho para o resultado, ainda longe de terminar e penso no que acharias. Quase juraria que ficarias feliz, contente por ver que desta vez irá ficar bem... quase. Falta-me a certeza, falta-me a tua opinião, falta-me ver-te a dar palpites como sempre fazias quando resolvíamos fazer obras ou modificações em casa.
Sinto-me perdida sem ti, sinto-me vazia. Habituei-me estes últimos anos a contar com a tua opinião, com o teu apoio.
Faz-me falta.
Mais do que tudo o resto, a imagem da tua agonia no hospital não me dá tréguas, não me dá descanso. Para onde quer que olhe, revejo vezes sem conta aqueles dois dias de aflição, de apoio insuficiente da minha parte, de não ouvir ou não querer ouvir o que mais querias, o que mais desejavas, de não querer perceber e aceitar o teu desejo...
Se ou menos a nossa mente fosse como um computador, uma máquina perfeita que permite apagar o que está a mais, apagaria estas imagens ofuscantes e ficaria apenas com os bons momentos, as alegrias, os sorrisos, os abraços sentidos, os mimos que tanto gostava de dar quando, à noite, ficavas só na sala a ver as tuas novelas...
Se ou menos tivesse a certeza que me perdoas...