Olhos inchados e vermelhos após um fim de dia e uma noite difíceis, olho para trás e não vislumbro sequer a caminhada que pensava já ter feito...
Afinal, parece que não saí do sítio apesar de olhar à minha volta e ver o quanto está tudo já diferente.
Os lugares mudaram, a disposição da casa está diferente, já nem parece a mesma, mas continuo a ver tudo tal como estava, a «ouvir» o som das bengalas pelo corredor fora, até parece-me ouvir a novela da noite apesar da televisão estar desligada.
Sinto que estou a falhar contigo, não cumprindo com os teus desejos... O fim está longe, o caminho é sinuoso e acidentado.
Queria libertar-me, respirar por fim... esta falta de ar está a prender-me, a desgastar-me...
Queria falar, deitar cá para fora este sentimento de impotência, esta dor trucidante mas não consigo...
Queria dizer ao mundo o quanto me dói, o quanto esta imagem do fim me perturba e assombra, mas as palavras não saem, fico muda e impotente.
Queria poder gritar, libertar-me.
Ficou tudo por resolver, ficou tudo para mim, sinto-me presa a um passado que me está a corroer lentamente, e não sei como resolver isso, não sei como desfazer-me do que resta, não tenho coragem de me impor, de exigir dos outros pelo menos parte das obrigações... Porque afinal, somos todos teus filhos, não somos? Por que motivo devo ser eu a única responsável pelo que deixaste, e ainda fiel depositária do que ficou? Porque que motivo devo eu ficar eternamente com a vida virada do avesso até que cada um decida se quer alguma coisa e quando? Até quando?