Este é um blog de lamentações, comisserações, e possivelmente mais alguns "ões" à mistura... É proibida a entrada a quem andar de bem com a vida, sob pena de ficar em estado vegetativo, tal como estou nesta fase da minha vida...

Porque a vida é feita de momentos por vezes dolorosos e nem sempre estamos preparados para enfrentá-los...
Segunda-feira, 09 de Abril de 2012

Estava eu ainda a arrumar toda a confusão destas obras que visavam apagar a tua presença nesta casa que aos poucos começo a sentir como minha e lembrei-me. Lembrei-me o quanto gostavas de ver tudo arrumado, aprimorado, o quanto gostava de organização...

Não te vou deixar ficar mal, garanto-te. Como tu, gosto de ver tudo nos seus sítios, nos seus lugares, bem organizado, limpo e arrumado.

Olho em redor e penso que terias gostado das mudanças, teria gostado de ver estes novos espaços, a amplitude que a casa ganhou. Parece tudo maior, melhor, novo.

E a nova porta de entrada? Há quanto tempo ansiavas por ela? Sempre que saio ou entro penso em ti, em quanto desejaste uma porta nova, em todas as vezes em que falaste nisto, e tenho a certeza que terias gostado. Pena foi partires sem a ver, sem ter conseguido o que mais pediste e há quanto tempo!

Hoje, já se parece mais comigo, já me sinto no meu lugar, mas afinal não é isso que me prendia, pois não? Não melhorou por estar diferente, por apagar a tua presença nos lugares, nos móveis, nos quadros... Não estás nos bens materiais, pois não? Estás em mim, estás no ar... Continuas presente, continuas comigo... É claro que não quero esquecer-te, não te quero deixar, só queria apagar as últimas imagens e ficar com o melhor... Sei que o tempo irá ajudar, acredito que um dia irão ficar apenas os bons momentos, mas o tempo é longo e sinto-me obcecada, sinto-me assoberbada por estas últimas imagens, estes últimos momentos que corroem, que assolam um viver difícil... E sinto-me perseguida, abandonada, esquecida. Sinto que sem ti não existo e em todas as palavras ditas ou por dizer, vejo o quanto fiquei transparente, invisível aos olhos dos outros.

Quem mais se importa comigo? Quem mais tenta saber se estou bem, se preciso de alguma coisa? Quem mais me visita?

Afinal, será que existo sem ti?

Talvez família sejamos apenas nós, eu, o M. e o G. Talvez sem ti, tudo o resto se esfumou... Talvez falte conformar-me com isso, talvez depois tudo melhore... Talvez, mas não é isso que quero, não sei se consigo... Este vazio sufoca-me!

 

 

publicado por Abigai às 12:55

Sábado, 31 de Março de 2012

Quando a noite cai, sentada cá fora ao relento, naquele que já não é o teu terraço, desprovido das plantas e flores que tanto gostavas e cuidavas, as saudades apertam.

Saudades do tempo em que a tua ausência era simplesmente inimaginável.

Saudades da imagem de imortalidade que transparecia de ti.

Saudades dos teus reparos, da tua presença inabalável, dos teus improváveis e raros queixumes.

Saudades do teu rosto, da tua pele lisa e macia, poupada das habituais marcas do tempo e da velhice.

Saudades dos teus gestos lentos, atrapalhados, desajeitados pela fraqueza de uns ossos marcados pela idade e por uma vida de trabalho e esforço.

Saudades dos mal-entendidos, das conversas trocadas, das palavras truncadas por ouvidos cansados e surdos.

Saudades do teu carinho sempre adequado às circunstâncias, sempre transparente, sempre presente.

Saudades das tuas preocupações exageradas, aumentadas pelas cismas de um dia-a-dia fechado, preso a um corpo de cada vez mais inerte apesar da tua categórica renúncia em parar.

Saudades da tua força, da tua capacidade em mover montanhas, em nunca renunciar.

Saudades do teu amor transbordante, transparente, evidente e sempre presente.

Saudades de ti...

 

publicado por Abigai às 18:55

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